
Ao ouvir Oito anos,da artista Paula Toller, percebi que meus alunos do terceiro ano do ensino fundamental do Centro Pedagógico da UFMG, em Belo Horizonte, poderiam gostar de fazer perguntas como as da letra.
Decidi levar a música para eles ouvirem, pensando em utilizá-la em uma discussão sobre o uso do ponto de interrogação e a estrutura de frases interrogativas. Mas o trabalho não parou aí e tomou caminhos muito interessantes.
A música Oito anos foi digitada sem os pontos de interrogação. As crianças a ouviram, acompanhando a letra no papel. Depois todos cantamos juntos. Instiguei os alunos dizendo que algo havia sido omitido na letra da música. Um aluno sugeriu: “As respostas!”. Ao final da discussão, a turma concluiu que faltavam pontos de interrogação ao final das frases interrogativas.
Estimuladas por mim, as crianças escreveram três perguntas para as quais não sabiam a resposta. O resultado foi impressionante, tendo surgido questões como: “De onde vêm os seres humanos?”, “Por que o céu é azul?”, “Onde está Deus?”, entre muitas outras.
Fui para casa pensando naquela atividade. Resolvi levar para a sala de aula as perguntas digitadas, sem os nomes dos alunos que as fizeram. Pedi que eles marcassem as três mais interessantes. Por meio de votação, chegamos a duas perguntas cujas respostas as crianças queriam pesquisar: “De onde vem o dente?” e “De que é feita a lua?”.
O próximo passo foi o levantamento de conhecimentos prévios. Entreguei aos alunos uma folha em branco com o título “O que eu sei sobre a lua” ou “O que eu sei sobre o dente”. Alguns afirmavam que a lua era feita de papel higiênico, de queijo... Percebi que primeiro eles precisavam conhecer aspectos gerais sobre o desenvolvimento humano e o sistema solar.
Caça ao tesouro
Desafiei os alunos questionando-os sobre onde buscaríamos a resposta para nossas perguntas. Algumas sugestões foram: internet, livros, revistas. Continuei instigando-os: “Em qual tipo de livro?”, “Em livro de histórias?”, “Quais revistas?”, “Gibis?”. Discutimos sobre como uma enciclopédia é organizada e na aula seguinte fomos à biblioteca da escola.
Foi um exercício muito interessante, uma caça ao tesouro. Quando as crianças encontravam um artigo relacionado ao tema em questão, ficavam eufóricas, me mostravam e eu separava o material. Posteriormente, tirei cópia dos artigos, detalhando a fonte de cada um.
Verifiquei a necessidade de construir algumas estratégias de leitura com os alunos: ler com objetivos definidos, identificar as informações mais importantes de um texto e não copiá-las de seu portador.
Levei as cópias dos textos que eles encontraram na biblioteca e trabalhamos estratégias de leitura e escrita. Transcrevi as perguntas de nossa pesquisa no quadro, e cada criança contribuía com informações dos textos que havia lido.
Construímos um texto coletivo sobre a lua e sobre o dente. Cada grupo registrou o texto em seu caderno. Após esse exercício, os alunos compararam o texto construído coletivamente com o primeiro, elaborado a partir de seus conhecimentos prévios.
As crianças perceberam as mudanças de um texto para o outro. Mas em seguida perguntei: “Será que podemos parar?”, “Já respondemos às nossas perguntas iniciais?”. Todos foram unânimes em dizer que não.
Na semana seguinte...
Preparamos um roteiro de entrevista e convidamos um dentista e um físico para serem entrevistados. Tomei o cuidado de elaborarmos poucas perguntas, pois queria que as crianças registrassem as respostas. Digitei o roteiro de entrevista, já deixando um espaço para as respostas, e combinei com os entrevistados que eles deveriam ser didáticos em sua explanação.
Convidei os alunos a escrever e ilustrar um texto informativo com os resultados de nossa pesquisa. Decidimos por publicá-la no site da escola, pois desse modo todos teriam acesso – na escola, em casa e em lan houses. As crianças fizeram uma divulgação do trabalho na escola e os pais o acessaram na internet.
Foi bom porque...
O projeto trouxe novos significados à produção e revisão de textos. Os alunos aprenderam a utilizar variadas fontes de informação e descobriram que o conhecimento não está pronto e acabado nos livros.
Talvez a aprendizagem mais importante para as crianças e para mim tenha sido aprender que existe espaço na escola para nossas perguntas e também para buscarmos as respostas.
Para ouvir a música Oito anos, acesse o site http://www.paulatoller.com/index1.html.